Dicas

O que podemos esperar de uma objetiva profissional?

09/12/2016

Se você é um entusiasta da fotografia certamente já passou algumas horas no site da B&H, uma espécie de meca do audiovisual em Nova Iorque, para namorar aquela imensidão de câmeras, objetivas e acessórios de fotografia.

O site é bastante utilizado por profissionais do mundo inteiro, mesmo os que não tem a intenção de comprar equipamentos com eles, pois serve como referência de preços em função da quantidade imensa de itens em seu catálogo.

Bastam alguns instantes navegando pela seção de objetivas para notar a diferença discrepante de preços entre as lentes de diferentes categorias.

No caso das objetivas da Canon, a empresa separa lentes de qualidade superior em uma linha chamada de L-Series, em que as objetivas recebem uma linha vermelha próxima da extremidade. A Nikon não tem uma linha específica, porém algumas lentes de qualidade superior recebem uma linha dourada. Já a Sigma, possui uma linha chamada de Sigma Art que vem sendo ampliada nos últimos anos.

Veja esse dois exemplos de objetivas zoom com praticamente o mesmo intervalo de distâncias focais:

Nikon AF-P DX NIKKOR 18-55mm f/3.5-5.6G VR Lens – USD $250

Nikon AF-S DX Zoom-NIKKOR 17-55mm f/2.8G IF-ED – USD $1500

A diferença de preço entre elas é de 1250 dólares. Apesar da mais cara ter 1mm a mais de alcance na distância focal em grande-angular, definitivamente não é esse milímetro que justifica a gritante diferença de preço entre as duas.

Mas o que justifica?

Vejamos alguns motivos:

Qualidade geral da imagem

É evidente que esse não poderia deixar de ser o fator principal. Os elementos ópticos que compõem as objetivas possuem construções mais complexas em categorias superiores. Essas características fazem com que a objetiva produza imagens de nitidez superior, melhor definição de contraste e cores mais reais.

Além disso, essas objetivas também possuem acabamentos melhores para reduzir aberrações cromáticas, vinhetas muito fortes, entre outras distorções. Apesar dos softwares de pós-produção realizarem um bom trabalho em eliminar esse tipo de aberrações, uma captura mais precisa salva tempo de edição e produz um resultado final ainda melhor.

Além disso, há objetivas construídas com vidros capazes de reduzir até mesmo o flare (aquele vazamento de luz que invade a cena dependendo da posição em que apontamos a câmera para uma fonte de luz).

Se você já tentou eliminar um flare indesejado na pós-produção, já deve ter visto que isso pode ser impossível em alguns casos, já que eles podem tomar conta de partes muito grandes do quadro. Além disso, muitas vezes o flare é razoavelmente sutil, não sendo tão perceptível graficamente, porém facilmente notado pela perda de nitidez nas partes em que ele afeta a imagem.

Os recursos tecnológicos capazes de conferir essas capacidades refinadas no desempenho das objetivas é normalmente descrito pelos fabricantes por meio de siglas, o que deixa a maioria das pessoas bem confusa, já que elas tratam de termos técnicos da engenharia dessas lentes.

Para exemplificar, veja como a Nikon descreve algumas características da nova AF-S 70-200mm f2.8E  FL ED VR, lançada esse ano:

ED – Cristal ED (Dispersão Extrabaixa)

Um vidro ótico desenvolvido pela Nikon, que é utilizado em conjunto com vidro ótico normal em lentes telefoto e que auxilia na correção das aberrações cromáticas.

FL – Elementos de lente de fluorita

O fluorita (FL) é um material ótico leve como um cristal, tem excelentes propriedades óticas e reduz o peso total da lente para melhorar o equilíbrio e o manuseio, além de ser especialmente útil em lentes com distância focal maior.

HRI – Lente de Alto Índice de Refração

Com um índice refrativo de mais de 2.0, uma lente HRI pode proporcionar efeitos equivalentes àqueles obtidos com vários elementos de cristal padrão e pode compensar tanto a curvatura de campo quanto as aberrações esféricas. Portanto, as lentes HRI atingem grande desempenho ótico em um corpo ainda mais compacto.

N – Revestimento em Nanocristal

Uma película antirreflexo desenvolvida pela Nikon que virtualmente elimina reflexos no elemento interno da lente para um amplo alcance de comprimentos de onda.

SIC – Revestimento Superintegrado

É o termo da Nikon para o revestimento multicamada dos elementos óticos nas lentes NIKKOR.

Complicado, não é mesmo? Mas é exatamente esse tipo de tecnologia, proveniente de muita pesquisa e desenvolvimento, que confere a qualidade ótica superior das lentes profissionais, eliminando, inclusive, defeitos existentes em suas lentes equivalentes de categorias inferiores.

 

Construção da objetiva

Se você observar uma objetiva por dentro, verá que ela é formada por elementos separados em grupos. Dependendo da construção da objetiva, pode haver uma maior ou menor quantidade desses elementos, com impacto direto no custo.

É o design desses elementos ópticos que pode diferenciar objetivas de mesma distância focal, mas de fabricantes diferentes. Essa construção tem impacto direto na qualidade de imagem e em suas distorções e aberrações, como visto no ítem anterior.

Diagrama da objetiva Nikon AF-S NIKKOR 70-200mm f/2.8G ED VR II

Diagrama da objetiva Nikon AF-S NIKKOR 70-200mm f/2.8G ED VR II

Você pode conferir a quantidade de elementos e de grupos de suas objetivas nas especificações técnicas fornecidas pelos fabricantes.

Veja esses dois exemplos:

Canon EF 50mm f/1.8 STM – 6 elementos em 5 grupos

Canon EF 50mm f/1.2L USM – 8 elementos em 6 grupos

Além da diferença na construção dos vidros que compõem a objetiva, todos os demais componentes também podem receber materiais e tratamentos especiais em categorias superiores.

As objetivas mais simples dificilmente irão resistir a uma queda ou ao uso intenso durante a sua vida. Já em categorias superiores, via de regra os materiais utilizados são mais resistentes, tanto nos componentes internos quanto nos externos. O uso de partes de metal, em substituição aos acabamentos em plástico, oferece uma camada extra de proteção com o acréscimo de algumas gramas a mais no peso final.

Algumas objetivas profissionais também oferecem uma proteção extra contra poeira e umidade que são praticamente indispensáveis para quem vive em cidades litorâneas ou muito úmidas. A criação de fungos em lentes mais simples é praticamente certa nesses casos, mas você pode evitar seguindo as dicas desse artigo: Como evitar fungos nas lentes fotográficas.

Essa proteção climática é chamada de Weather Sealing e também permite que a objetiva mantenha sua performance em situações extremas de temperatura, como fotografias na neve, por exemplo. Em alguns casos pode proteger a objetiva até mesmo de gotas de água.

 

Abertura máxima

red-eye frog Agalychnis callidryas in terrarium

Se você observar uma lente zoom do kit, por exemplo, você irá notar que a abertura máxima do diafragma varia conforme a distância focal, geralmente atingindo f/3.5 na distância focal mínima e f/5.6 na máxima.

Em objetivas profissionais, além de ser possível uma abertura máxima muito superior, essa abertura mantém-se a mesma em toda a extensão do zoom.

A maioria esmagadora das objetivas zoom profissionais tem a abertura máxima de f/2.8. Porém há raras exceções como a Sigma 18-35 f/1.8 DC HSM Art, disponível para câmeras da Canon e da Nikon.

Já as lentes de distância focal fixas, também chamadas de Prime, são mais facilmente construídas com aberturas máximas ainda maiores, como a Canon EF 85mm f/1.2L II USM.

O ganho de luz é bastante alto e é uma das principais justificativas do preço elevado. É possível fazer fotos em situações mais complicadas de luz, sem ter que apelar para valores excessivos de ISO. Ganha-se em nitidez e produz-se imagens com menos ruído, ou seja: um importante fator em prol da qualidade geral da imagem.

A importância da abertura máxima e o preço que se paga por esse ganho de luz fica bem exemplificado pelas 3 versões da 50mm da Canon:

Canon EF 50mm f/1.8 STM Lens – USD $110

Canon EF 50mm f/1.4 USM Lens  – USD $299

Canon EF 50mm f/1.2L USM Lens – USD $1349

A versão mais cara, além da superior abertura f/1.2, também possui um elemento chamado de “asférico“, muito mais caro e complicado de se produzir. Esse elemento aumenta a qualidade geral da imagem, pois é capaz de reduzir algumas aberrações, em especial as geradas em aberturas muito grandes.

Tamanho dos elementos

Em geral, as objetivas mais simples são feitas para uso em câmeras com sensor cropado (APS-C), de tamanho físico menor do que o sensor das câmeras Full Frame. Assim, é possível economizar custos produzindo objetivas com elementos menores, sob medida para o tamanho desses sensores.

 

Tamanho fixo

Enquanto objetivas mais simples aumentam e diminuem seu tamanho conforme o uso do zoom ou do foco, algumas lentes de categorias superiores são construídas para manter fixo o seu tamanho.

A vantagem é uma vida útil maior e a redução da possibilidade da soltura ou movimentação de peças internas, em função do maior desgaste mecânico. Em lentes mais simples, isso pode ocasionar perda de qualidade geral da imagem, principalmente de nitidez.

Há também algumas objetivas mais simples cujo elemento frontal gira (rotaciona), o que torna praticamente inviável o uso de filtros CPL ou filtros graduados, por exemplo. O ajuste do filtro teria que ser refeito todas as vezes que o elemento frontal mudasse de posição. Objetivas profissionais já eliminam essa característica e você pode usar seus filtros tranquilamente.

 

Autofoco

 

Objetivas de nível superior também podem apresentar sistemas de autofoco mais rápidos, precisos e silenciosos.

Talvez você nunca tenha fotografado com uma objetiva barulhenta, mas acredite: há modelos em que o barulho gerado pela movimentação dos elementos internos inviabiliza determinados tipos de fotografia, como de insetos, vida selvagem ou de apresentações intimistas em teatros. No vídeo acima dá para se ter uma noção de como é um autofoco barulhento.

Além disso, a velocidade e precisão superior do autofoco conferem ao fotógrafo uma chance maior de sucesso em fotografias de esporte e movimento.

 

Bokeh

bokeh

Nós todos temos uma queda pelo fundo desfocado, não é mesmo? Poucas coisas na fotografia deixam um ponto de interesse tão bem definido e destacado como um fundo desfocado.

O bokeh é a característica estética desse desfoque do fundo, que é muito mais bonito em objetivas de qualidade superior e com aberturas maiores.

Conseguir um bokeh verdadeiramente “cremoso”, como ele é carinhosamente descrito por muitos fotógrafos, é uma tarefa difícil para lentes escuras e de abertura variável.

É por isso que a 85mm f/1.8 é uma das objetivas mais indicadas para retratos: bokeh cremoso, qualidade óptica superior e boa nitidez mesmo nas maiores aberturas.

 

Data de lançamento

A versão recém lançada dessa objetiva é 700 dólares mais cara que a anterior.

A versão recém lançada dessa objetiva é 700 dólares mais cara que a anterior.

Algumas objetivas possuem modelos mais novos e atualizados com os recursos tecnológicos mais recentes. Em alguns casos, o modelo mais novo pode ter um preço ainda mais elevado simplesmente pelo fator novidade.

 

Custo de fabricação

Enquanto algumas lentes mais simples podem ser produzidas com elevado nível de automação, objetivas profissionais são verdadeiras jóias, tratadas com o cuidado e a precisão de um ourives.

Confira nos vídeos abaixo, os bastidores da produção de objetivas. É inacreditável!

 

Conclusões

Objetivas profissionais possuem custos elevados por uma série de motivos. Não só os componentes utilizados possuem características de qualidade superior, como o próprio processo de fabricação envolve etapas mais complexas e um controle de qualidade mais rígido. Além disso, existe um custo bastante elevado em Pesquisa e Desenvolvimento para que a indústria consiga superar seus limites a cada novo lançamento.

Ao considerar o investimento em lentes de qualidade superior, deve-se ponderar o ganho efetivo de qualidade, durabilidade e usabilidade. Como são mais duráveis, a opção pela compra de objetivas superiores usadas pode ser uma boa saída de custo/benefício.

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